terça-feira, 12 de março de 2013

Luzia... uma brasileira de 11 mil anos!

Heeeeinnn??? Mas o Brasil não tem apenas 512 anos??? Como pode isso???

Pois é, pessoal... livros didáticos, costumam enfatizar a "descoberta do Brasil", acontecendo via Pedro Álvares Cabral, em meados do ano 1500!

Terraaaaaa à vistaaaa!!!!!!!!!!!!!
No entanto, esses mesmos livros contam que ao chegar naquela terra desconhecida, já haviam habitantes (que ganharam o nome de índios, haja vista que o objetivo da viagem era chegar na Índia).

Bom... algo está errado nisso tudo! Como posso dizer que foram os portugueses que descobriram nosso país, sendo que já haviam habitantes no local descoberto? Isto é, alguém já descobriu essas terras antes, não é mesmo?

Sem dúvidas! E isso é um assunto já bastante discutido entre historiadores, sociólogos, antropólogos, etc...
OK... MAS E O QUE A PSICOLOGIA EVOLUCIONISTA TEM A VER COM ISSO?

Donald Johanson e Lucy
(nome inspirado na música dos Beatles:
Lucy in the sky with diamonds)
Bom... a grosso modo pode parecer que não tem nada a ver! Mas é nessa hora que vale a pena considerar que a Psicologia Evolucionista é um campo de conhecimento que possui diálogo com outras fontes de conhecimento... no caso a ser destacado aqui, a conversa será por conta de campos como a ARQUEOLOGIA PALEONTOLOGIA.


Na década de 70, no Estado de Minas Gerais (mais precisamente na região de Lagoa Santa), foi encontrado (em meio a escavações) um crânio de aproximadamente 11mil anos de idade. Em alusão ao famosíssimo hominídeo "Lucy", descoberto na Etiópia pelo paleantropólogo Donald Johanson, o crânio descoberto em terras tupiniquins ganhou o nome de Luzia.

Uma série de acontecimentos fizeram de Luzia mais e mais famosa no meio científico. No entanto, seu ápice chegou, em meados dos anos 90, quando a BBC resolve financiar uma reconstrução craniofacial de Luzia, com o intuito de realizar um documentário sobre o povoamento das Américas, na pré-história.

Walter Neves

Outra questão que também elevou o nome de Luzia, diz respeito ao impacto causado pelas publicações do bioantropólogo Walter Neves. Em 1998, enquanto participava de um evento científico nos EUA, Neves propôs uma nova teoria para a ocupação do continente americano.

OPA... CALMA AÍ!!!

Nova teoria? Mas qual é a velha teoria então?



Pois então, sugere-se que os homo sapiens modernos saíram da Africa (seu local de origem) em torno de 40mil anos atrás. Várias foram as correntes migratórias, sendo uma delas para o sul da Ásia.


Aos poucos, os homo sapiens foram migrando em inúmeras localidades, até que, finalmente, uma parcela destes chegaram ao norte asiático. Desta localidade, tiveram condições de atravessar o Estreito de Behring e assim chegar na América.

A partir desta teoria, bem como de outras considerações, como as características morfológicas, por exemplo, compreende-se que a etnia dos indígenas seria proveniente dos asiáticos. No entanto, as características morfológicas de Luzia aproximam-se mais de aspectos encontrados em africanos, do que em indígenas.

Seria então, a América povoada, inicialmente, por africanos?

Bom, um fato a ser mencionado é que da leva de homo sapiens que saíram da Africa, alguns acabaram povoando o sudeste asiático, para em seguida partirem para a região australo-melanésica. Entende-se que esta leva de migrantes seriam então os ancestrais dos aborígenes australianos.

Crânio de Luzia
Walter Neves (e colaboradores) aponta que as características morfológicas de Luzia eram semelhantes a de outros fósseis de mesma idade, encontrados na Austrália, Melanésia e Africa. Este fator remonta que Luzia pertence a um estoque populacional humano que veio anteriormente aos humanos que conhecemos hoje, isto é, já tem características de homo sapiens moderno, mas é de uma linhagem que gerou as etnias atuais (caucasianos, negros, asiáticos, etc.).

Luzia seria então pertencente a uma leva de migrantes que teriam chego nas Américas bem antes dos asiáticos, que chegaram via Estreito de Behring, no extremo norte das Américas. A forma como a marcha de migrantes homo sapiens, da qual pertence Luzia, chegaram nas Américas é ainda muito discutida entre especialistas, no entanto, sua semelhança morfológica com os aborígenes australianos sugere que eles tenham vindo da Austrália.

Reconstituição da face de Luzia
Tanto a possibilidade das Américas terem sido migradas inicialmente por africanos, quanto a própria imagem gerada pela reconstituição de Luzia (apresentando sua coloração de pele sendo negra), encadearam uma série de debates midiáticos carregando a bandeira de nosso passado (enquanto brasileiros) ligado a ascendência negra. Em relação a isso, é válido mencionar que o próprio Walter Neves buscou ser cuidadoso ao expor o assunto alertando que embora seja muito provável que a pele dos homo sapiens africanos  seja negra (dado o clima quente da época, favorecendo a produção de mais melaninas), ainda não se sabe se de fato a cor da pele dos africanos eram negras ou se a cor surgiu depois.

No âmbito da Psicologia Evolucionista, o caso de Luzia torna-se instigante mediante a possibilidade de ela nos levar a caminhos que permitam melhor compreensão das raízes culturais americanas. Esta consideração reforça ainda mais a concepção inicial deste post, do quanto a Psicologia Evolucionista está plugada em outras áreas, para fazer as análises que lhe compete: os primórdios da cognição e comportamento humano.

=========================================================
Para esse post foram consultadas as seguintes obras:
"O povo de Luzia: em busca dos primeiros africanos" (Autores: Walter Neves e Luis Piló)
- "A cor dos ossos: narrativas científicas e apropriações culturais sobre 'Luzia', um crânio pré-histórico do Brasil" (Autores: Verlan Neto e Ricardo Santos)

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

      Excluir